sábado, 7 de fevereiro de 2009
Um centavo poupado é igual a um centavo ganho. Essa é uma frase atribuída a Benjamin Franklin, essencialmente parecida com aquele ditado popular sobre os grãos, a galinha e o seu papo cheio.
Citações de boteco de lado, existe uma regra simples que está totalmente relacionada com a construção do futuro financeiro. Ela diz o seguinte: consumir além do possível hoje, significa, necessariamente, consumir menos amanhã. O inverso também é verdadeiro: adiar o consumo presente (ou seja, consumir menos hoje) significa consumir mais amanhã.
É importante perceber que, ao contrário do que alguns pensam, o poder de poupança não depende do tamanho do salário da pessoa. O ponto chave é a capacidade de acumulação, o quanto você consegue poupar e investir ao longo do tempo. E isso está relacionado com a diferença entre o que você ganha e o que você gasta.
Para colocar isso melhor, seguem dois casos reais, retirados do excelente livro Investimentos - Como Administrar Melhor o Seu Dinheiro.
Caso 1
Jorge é um bem-sucedido executivo de uma empresa multinacional, em São Paulo. Todo mês, mais de R$ 20.000,00 são depositados em sua conta corrente. Certamente, ele faria parte da elite de qualquer país desenvolvido. Foi casado com Vera, uma nutricionista, que trabalha em outra multinacional, recebendo cerca de R$ 3.000,00 por mês. O casal tem dois filhos, Fábio e Juliana, que estudam em faculdades particulares, na capital de São Paulo.
Comer fora, viajar em férias para o exterior todos os anos, trocar os carros da família a cada dois anos, pagar contas elevadas de celular para todos e comprar roupas nas melhores lojas dos shopping-centers, tudo isso passou a ser uma necessidade da família de Jorge. Ninguém percebia exageros. Tudo era natural.
Há dois anos, Jorge decidiu separar-se. A rotina do casamento e a influência de colegas divorciados levaram-no a não tolerar mais os pequenos conflitos com sua esposa. Após 25 anos de união, o casamento já não existia mais.
Jorge foi morar em um flat e pode ser visto em companhia de jovens mulheres. Vera vem tentando melhorar seu estado depressivo, à custa de uma lipoaspiração e de uma pequena cirurgia plástica. Os filhos, chocados com a separação, tentam esquecer o problema da família, viajando com os amigos para o exterior.
As despesas assumem proporções ainda mais exageradas. Mas tudo é aceitável, ao menos aos olhos dessas pessoas e dos amigos mais próximos. Afinal, eles compartilham o mesmo estilo de viver.
Infelizmente, nada é eterno. Mudanças na empresa fazem com que Jorge perca o emprego. Um grande drama se instala. Na idade de Jorge, 51 anos, não é fácil encontrar emprego semelhante. Como viver a partir de agora? Jorge percebe que sua poupança é mínima. Ele tem apenas o dinheiro da rescisão contratual, cerca de R$ 80.000,00. Talvez dê para manter a família por uns seis meses. Mas eles vão ter que "apertar os cintos".
A situação de Jorge é muito comum, muitas famílias costumam elevar o seu padrão de gastos toda vez que recebem um aumento salarial e melhoram de renda. Parece algo natural, mas é importante entender onde está a armadilha. Aumentar os gastos na mesma proporção do aumento salarial, significa, na prática, não sair do lugar.
O pensamento que amarra as pessoas na pobreza é justamente esse, o de não dar importância para o futuro, o de ignorar a capacidade de poupança e o de usar a totalidade de seus recursos no aqui agora.
Vejamos o segundo caso, retirado do mesmo livro.
Caso 2
Justino nasceu em uma pequena cidade perto de Vitória da Conquista, na Bahia. Aos 23 anos, veio tentar uma vida melhor em São Paulo, seguindo o exemplo dos dois irmãos mais velhos. Encontrou o primeiro emprego como auxiliar de pedreiro em uma pequena construtora. Seu esforço e dedicação valeram-lhe uma promoção para o ofício de pedreiro em menos de dois anos. Ao concluir um segundo prédio, foi convidado para ser o zelador do edifício. Já casado, Justino encontrou aí uma boa oportunidade de economizar o aluguel, residindo em um pequeno apartamento oferecido pelo condomínio ao zelador. Sua esposa, Rita, fazia serviços como diarista para os moradores do prédio. A família conseguia poupar metade dos rendimentos. Justino começou a adquirir terrenos no bairro de Vila Carrão, na periferia de São Paulo. Nos finais de semana, a família ia visitar seus pequenos terrenos. Após adquirir três lotes, Justino contratou uma pequena equipe para começar a construir uma loja, com um apartamento no piso superior. Ao final de cinco anos, já possuía duas pequenas lojas e dois apartamentos. A renda desses aluguéis passou a dobrar o rendimento da família, então contando com três filhos.
Após 25 anos em São Paulo, ele tem uma renda de R$ 8.000,00 mensais com o aluguel de doze pequenos imóveis. Vila Carrão cresceu muito nos últimos tempos e o conjunto de imóveis de Justino chega hoje a valer quase R$ 1.000.000,00. Uma história verídica, embora não tão comum no Brasil. Imagine o que seria de nosso país se pudéssemos ampliar o número de pessoas com a mesma capacidade de trabalho e de poupança do casal Justino e Rita...
Justino foi esperto, soube dar atenção à formação de poupança. Ao priorizar a construção de uma bagagem de ativos, ele garantiu o seu futuro. Teve um começo difícil, como todos os que não nascem em uma família rica tem. Mas ao longo do tempo sua condição foi apenas melhorando, até chegar a uma situação bem confortável.
No livro de onde tiramos os dois casos, o autor conclui no final do capítulo que a diferença entre aqueles que conseguem poupar e aqueles que não conseguem poupar é a capacidade de não cair nas tentações do consumismo.
Muitas pessoas dizem "eu preciso", "eu necessito", para justificar uma determinada compra, quando deveriam estar dizendo "eu quero", "eu desejo". Saber identificar o que é essencial e o que é descartável é uma habilidade importante para todos nós.